Sunday, 14 October 2012

Um Assassino em Asriad - Conto

Aqui vos apresento um pequeno e humilde conto da minha autoria alusivo à imagem publicada abaixo. Acrescento que esta imagem foi postada originalmente no grupo "O Cantinho do Corvo Fiacha" e que apenas me limitei a escrever o conto em volta da imagem. Bem, aqui fica.


Um Assassino em Asriad

            A neblina cobria o mar como um manto cinzento cobre uma cama. O sol brilhava no céu, acabado de nascer, refletindo a sua luz nas águas pacíficas e aquecendo o pequeno navio que deslizava suavemente no oceano. Joriah tentou ver para lá da neblina, mas apenas uma grande mancha cinzento-escura era visível. O seu cabelo loiro dançava com o vento que soprava forte naquela manhã. O capitão do barco subiu as escadas da sua cabina principal e resmungou qualquer coisa quando viu que Joriah se tinha levantado primeiro do que ele.
            Meia hora depois tinham atracado no porto de Asriad. O dia começava na cidade com os pescadores a chegar a terra e a despejar o pescado em contentores e caixas que depois seriam levados para o mercado. As peixeiras começavam a apregoar, as crianças corriam de um lado para o outro com os pés descalços sobre a pedra fria do porto, as criadas dos grandes senhores e senhoras da cidade traziam o seu pequeno cesto e compravam alimentos para o resto do dia.
            Joriah saboreou tudo aquilo enquanto esperava. Tinham-lhe dito que uma carta com as ordens a cumprir lhe seria entregue de manhã no porto e, por isso, agora só lhe restava esperar. Quando a fome despertou dentro de si, foi comprar duas sardinhas e um pão e comeu sossegado. Enquanto comia, uma criada passou por ele com o seu cesto e na borda havia uma carta. A criada deu uma pequena pancada e a carta caiu no colo de Joriah.
            O jovem mondarghi abriu a carta. Nela lia-se apenas duas frases: “Lorde Garfield. Independentemente do que acontecer, ele tem de desaparecer”. Era o quanto precisava de saber, aquele era o seu alvo.
            Saiu do porto, apreciando a pequena e cómoda cidade. Asriad localizava-se numa colina à beira-mar onde desaguava o rio Jarsmar que serpenteava colina abaixo. As casas tinham sido construídas ao longo da colina, tão perto uma das outras que pareciam caixas amontoadas. Pequenas pontes de pedra e madeira ligavam ruas superiores, pontes essas que tanto serviam de ligação como de habitação. Do outro lado da colina era o bairro rico da cidade, onde as casas eram mais afastadas, onde havia parques e onde o rio era limpo e translúcido, com as grandes mansões e jardins coloridos.
            Enquanto caminhava pelas ruas apinhadas de gente, Joriah foi apanhando pedaços de conversas aqui e ali e rapidamente descobriu que Lorde Garfield era o governador da cidade. E também descobriu que ia dar uma festa para celebrar o seu trigésimo terceiro Ciclo. O número três dá sorte, segundo se diz, e ainda mais sorte é celebrar o trigésimo terceiro Ciclo com Esthia, Elaria e Eria cheias.
            Chegou ao topo da colina. Dali podia ver o bairro rico de Asriad. Era uma parte mais calma da cidade, onde havia menos gente na rua, onde as crianças favorecidas brincavam nos parques acompanhadas das suas amas, os senhores e senhoras passeavam calmamente e conversavam, discutindo com que Lorde a filha se ia casar ou que rendimentos tinham tido no passado Ciclo. Havia uma particular azáfama em torno da maior casa da cidade. Era ali que, provavelmente, o Lorde Garfield vivia. Criadas e amas entravam e saiam da residência, apressadas para fazer qualquer coisa.
            Desceu a encosta. Antes de realizar o ato tinha de estudar o alvo, saber as suas rotinas, onde ia de manhã e de tarde, quando saía de casa e, mais importante, quando se tornava num alvo fácil. Os portões da casa eram guardados por quatro guardas e as portas principais da casa por mais dois. Quando espreitou por uma grande janela da mansão descobriu que o Lorde Garfield era seguido por mais um guarda que provou um bolo antes do Lorde o poder provar. Por que anda ele tão protegido? Então percebeu porquê. Aquela não seria certamente a primeira tentativa de assassínio. Ande protegido ou não, ninguém escorrega pelos dedos de um mondarg, muito menos pelos meus dedos, pensou Joriah.
            Após dar o estudo dos hábitos de Lorde Garfield por inúteis, Joriah dedicou o resto da tarde a procurar quem o tinha contratado. Todo o trabalho tinha sido feito em segredo. Nunca chegara a saber quem queria o Lorde Garfield morto, nem sequer sabia uma letra do seu nome. Não sabia se era um Lorde ou uma Senhora, se era rico ou pobre. No entanto iniciou a sua pesquisa por tentar descobrir a criada que lhe tinha dado a carta.
            Voltou ao mercado, agora na sua hora de ponta. As pessoas passavam atarefadas de um lado para o outro e em todo o lado toda a gente falava do trigésimo terceiro Ciclo do Lorde Garfield. Dizia-se que todos os Lordes e todas as Senhoras da Península de Darigmar iam à festa, que iam servir dezenas de pratos, que haveria teatros e músicos e que o melhor vinho de Gorganar tinha sido trazido. Não viu a cara da criada em lado algum e quando se preparava para partir, ouviu outra conversa entre duas peixeiras.
            — Ouvi dizer que o Lorde Garfield quase morreu na semana passada — disse uma.
            — Então, o que aconteceu? — Perguntou a outra, casualmente, como se aquilo fossem notícias ultrapassadas.
            — Parece que uma criada lhe envenenou o vinho. A sorte dele foi que o guarda provou primeiro e ele sobreviveu. A criada não foi encontrada, nem um rasto dela.
            — Com essa tentativa já lá vão… trinta e três? — E ambas começaram a rir histericamente.
            O que fez ele para o odiarem tanto?, questionou-se Joriah. Enquanto regressava ao bairro rico, passou por um templo onde um aglomerado de pessoas se tinha juntado. Abriu caminho pelo meio delas e entrou no grande templo iluminado por janelas coloridas que representavam os vários deuses ali adorados, os deuses da Nova Fé. No centro do templo e no centro de um círculo com doze estrelas de doze pontas, estava uma mesa de pedra onde um morto estava deitado. Doze velas tinham sido acesas em volta do corpo. Um Sacerdote no altar discursava acerca da boa vontade dos deuses e sobre como eles iam levar o bom Lorde Ariahad para o Reino Eterno. Uma mulher vestida de vermelho chorava junto ao corpo, acompanhada por uma criada. A criada, também ela vestida de vermelho, olhou para Joriah e este percebeu que era a mesma que lhe tinha dado a carta naquela manhã.
            Olhou de novo para o corpo deitado na mesa de pedra e de novo para a criada que agora consolava a recente viúva. Tinha sido o Lorde Ariahad que o tinha contratado para matar Lorde Garfield. E agora ele estava morto. A criada voltou a olhar para ele e lembrou-se do que a carta dizia. “Independentemente do que acontecer, ele tem de desaparecer”. O ato tinha de ser realizado, Lorde Garfield tinha de morrer.
            Desviou o olhar dos olhos frios e penetrantes da criada e desapareceu no meio da turba, deixando o Sacerdote a cantar uma prece qualquer à Deusa da Memória para que o Lorde Garfield não fosse esquecido.
            O sol começava a desaparecer no horizonte e ainda não tinha um plano para fazer Lorde Garfield desaparecer. Não podia simplesmente entrar na sua mansão e matá-lo. Teria de se infiltrar. Também não podia mentir e dizer que era um Lorde qualquer porque uma festa de tal magnitude teria os seus convidados bem escolhidos e controlados. Entar por uma janela não seria fácil, com todos aqueles guardas a guardar os portões frontais e com aquele muro alto.
            Decidiu voltar para junto da mansão, para a estudar melhor. Quando lá chegou já as três luas brilhavam no céu, com Esthia a lançar um brilho suave e prateado como as donzelas. Elaria brilhava dourada como a coroa que a Rainha usava e como o ouro que os Lordes e Senhoras usam para comprar os seus interesses. Eria, por sua vez, brilhava com uma luz cinzento-escura banal, como o resto do povo.
            Os primeiros nobres começavam a chegar. Bandaernos vindos do sul, noriathi do norte. Lordes e Senhoras vindos de todos os cantos de Erithios para celebrarem tão especial acontecimento. Viu Lorde Almuar’Enoh, um noriathi de Dagwell, a cidade mais a norte de Erithios. Aos quatro guardas que previamente guardavam os portões frontais, juntaram-se-lhes dois mordomos, um com uma lista com todos os convidados e outro que recebia os nobres do reino.
            Joriah estudou o muro que rodeava a propriedade e decidiu que era demasiado alto para tentar subir. Se não vou por cima, pensou, vou por baixo. A propriedade ficava isolada das outras, rodeada por um pequeno bosque de pinheiros. Foi até ao lado Este do muro e quando decidiu que era seguro, transformou-se. Tal como era habitual com os mondarghi, a Dádiva tinha-lhe concedido o poder de tomar a forma de um animal. Para sua sorte, era uma pantera. Quando se transformava, tornava-se num animal feroz com presas capazes de rasgar qualquer pescoço ou arrancar qualquer membro. Daí a sua fama de assassino.
            Começou a escavar junto ao muro com as suas garras compridas e afiadas. O seu pelo negro não passava de uma sombra entre as sombras e os seus olhos amarelos pareciam estrelas numa noite de Yx (ver em notas o significado). Quando viu que o muro não continuava mais, começou a escavar um túnel. Em poucos minutos uma passagem tinha sido aberta para o outro lado do muro. A noite já se tinha imposto e agora apenas as luas serviam de iluminação. Decidiu manter a forma de pantera negra pois seria mais fácil para se esconder na noite.
            Aproximou-se de uma grande janela que dava para o grande salão onde a festa decorria. Havia convidados de todas as raças, desde bandaernos com as suas imponentes asas negras e pele morena, até noriathi com a pele branca e os olhos azuis, passando por vanorianos com pele escura e longas espadas à cintura e pelos argonianos, poderosos na sua simplicidade.
            Havia convidados a dançar, outros parados a conversar e um grande grupo no centro do salão. Assumiu que aquele grupo se reunia em volta do Lorde Garfield. Os músicos tocavam músicas conhecidos por todos, como “A Espada do Sul” e “Os Cabelos da Donzela”. Finalmente o pequeno grupo dispersou e Joriah pôde ver o Lorde Garfield. Vestia um traje simples, uma túnica curta e cinzenta, um casaco vermelho e umas calças de lã grossa e castanha. Um longo manto vermelho com o símbolo da Casa Garfield bordado a ouro caía-lhe dos ombros, preso por um broche em forma de peixe a prendê-lo. O Lorde Garfield era, claramente, um argoniano, com o cabelo castanho e curto, barba aparada e olhos verdes. Sorria constantemente, de uma forma jovial, cumprimentando todos os que chegavam.
            Quando se apercebeu de que todos os convidados tinham chegado, pediu aos músicos que parassem. Fez um discurso que Joriah não conseguiu ouvir e quando acabou, os convidados bateram palmas de forma ruidosa. Só quando o Lorde Garfield desceu do pequeno estrado onde os músicos atuavam é que Joriah reparou no seu guarda pessoal que até então o tinha escoltado a toda a hora.
            Então surgiu a oportunidade perfeita para Joriah. Algum Lorde junto da janela onde estava chamou o Lorde Garfield que prontamente se aproximou. Joriah recuou e correu de encontro à janela. Saltou agilmente e partiu-a, entrando para o salão. Atingiu o Lorde Garfield que caiu ao chão e gritou. Os convidados também começaram a gritar e a fugir. O guarda pessoal de Garfield desembainhou uma espada longa e afiada e preparou-se para atacar a pantera, mas Joriah rasgou a garganta do Lorde e fugiu para o outro lado do salão onde os convidados se empurravam para sair. O guarda perseguiu-o, mas Joriah virou subitamente e correu para a janela partida em direção à noite escura. Saltou e conseguiu escapar.
            Quando se viu do outro lado da colina, onde as casas eram pobres e estavam empilhadas umas em cima das outras, voltou ao seu estado normal. A cidade adormecera com os seus habitantes a retirarem-se para as suas casas, preparando-se para o dia seguinte.
            Caminhou em direção ao porto onde esperaria por um barco que o levasse para longe de Asriad. O rio corria alegremente pelo meio da cidade e desaguava no mar agora escuro como o céu. O porto estava silencioso, ouvindo-se apenas os guinchos de alguns ratos. Então alguém lhe deu uma pancada na cabeça e Joriah desmaiou.
            Acordou numa sala ricamente decorada. Havia vários retratos nas paredes e tapeçarias com árvores genealógicas. Uma secretária de madeira escura tinha sido colocada em frente de duas janelas altas. Joriah estava sentado numa cadeira almofadada e à sua frente estava um bandaerno. Mas não era um bandaerno qualquer, era Lorde Ariahad.
            — Finalmente, acordaste — disse quando se apercebeu que Joriah tinha aberto os olhos. — Então, o Garfield está morto, não é?
            — Sim — respondeu Joriah. — Mas como é que…
            — Ótimo — interrompeu o Lorde Ariahad. — Há muito tempo que o quero debaixo de terra.
            — Então as tentativas de assassínio têm vindo de si?
            — Claro. De quem mais? E o Garfield começava a desconfiar. É que o lugar dele como governador pertence-me. Eu sou filho do antigo governador de Asriad e Garfield era pupilo do meu pai. A sua sede por poder começou a tornar-se demasiado grande e Garfield matou o meu pai. Uma vez que eu era muito novo e ele era pupilo de meu pai, fizeram-no governador após alguns subornos, apesar de toda a gente saber que tinha sido ele o assassino. O povo gostava muito do meu pai, sabes? Ele elevou esta cidade quera um monte de esterco a um monte de esterco com pepitas de ouro. Mas a Rainha sempre gostou do Garfield, vá-se lá saber porquê e desde então que ela me tem negado o meu lugar. Agora que tu o mataste, tu serás culpado e quando eu te entregar, a Rainha vai ter de me dar o lugar.
            — Mas tu estavas morto, toda a gente viu. O templo estava cheio de gente.
            — Sim. Mas a minha esposa, que sabia do plano, disse que queria levar-me para casa para a família se despedir de mim e afins. Claro que eu não estava realmente morto. A minha esposa esteve na Ilha durante dois anos e sabe o básico da Dádiva e conseguiu fingir a minha morte. Quando amanhã aparecer vivo, o meu médico dirá que tinha sido apenas um problema de coração e que não tinha morrido realmente.
            — E quando eles perguntarem como sabia que eu era o assassino?
            — E por que irão eles perguntar? Eu sou um Lorde, tu um desconhecido. E segundo o que eu vi, tu estavas transformado, não era? Todos sabem que foi um mondarg que fez o serviço. Primeiro porque nesta zona não há panteras negras e segundo porque nenhuma pantera negra selvagem parte uma janela, mata um Lorde que foi vítima de inúmeras tentativas de assassínio e vai embora.
            — Você estava lá quando eu ataquei?
            — Claro que estava. Senão, como me certificaria de que Garfield estava morto?
            — Esta cidade é demasiado corrupta… — murmurou Joriah.
            — A cidade não é corrupta. A política é que é.
            — Tanta sede de poder, tanto desejo de morte, tantos jogos de poder. Porquê tudo isto? Só por causa de um cargo e de mais algumas moedas? Só por causa da fama e do reconhecimento? Da riqueza?
            — A política é um jogo onde só os melhores sobrevivem. E como qualquer jogo, tens de saber jogá-lo para sobreviver. Garfield foi inteligente, mas desleixou-se quando se viu rodeado de poder e dinheiro. Agora vem, vou-te levar à Guarda de Asriad.
            Joriah olhou em volta. Um guarda tinha aberto a porta da sala e o Lorde Ariahad esperava por ele. Então Joriah levantou-se e correu em direção à janela, transformando-se na pantera feroz que realmente era. Aterrou silenciosamente na rua em baixo, caindo elegantemente na rua pavimentada. Lorde Ariahad gritou ordens aos seus guardas para que o perseguissem, mas Joriah correu rápido, rápido demais para os guardas.
            Quando chegou ao porto, havia um barco que partia. Transformou-se de novo e parou. Olhou para trás, para a cidade onde os pobres viviam em pequenas casas junto ao mar e onde os ricos viviam em mansões ao pé da floresta; onde o povo não passava de peças num jogo complexo e mortífero onde os ricos eram os jogadores; onde as teias da corrupção tocavam tudo e todos. Joriah olhou para trás e viu a cidade que por fora era brilhante e perfeita como uma maçã acabada de colher mas que na realidade é podre como uma maçã murcha e morta. Virou-se para o mar e saltou para o barco que partia, desaparecendo na noite. As luas brilhavam no céu e agora só os Deuses sabiam para onde ia.

            Notas: este conto passa-se em Erithios, no início do reinado da Rainha Olyria IV, quando Joriah tem apenas quinze Ciclos feitos. Em Erithios existem cinco estações, sendo que Yx, referida no conto acima, é uma época em que há bastante frio. Na cultura e religião de Erithios, os números três e doze dão sorte, assim como a cor vermelha, daí a presença destes elementos ao longo do conto.

Pedro Pacheco, 14 de Outubro de 2012

Saturday, 29 September 2012

A minha opinião sobre a Arte - Parte 2


Após ter pensado sobre o tema do post anterior (Arte), cheguei à conclusão que aquele post não me chegava, não me punha completamente satisfeito. É que, para aqueles que ainda não sabem, existe um maravilhoso grupo no Facebook de seu nome "O Cantinho do Corvo Fiacha", um grupo dedicado a tudo e mais alguma coisa. O seu administrador, o Corvo Fiacha, teve mais uma brilhante ideia e propôs que todas as semanas os membros do grupo votem num tema para ser discutido. E desta vez o vencedor foi a Arte. Culpo-me a mim e a todos os outros que votaram neste tema, por me fazerem a vida complicada. É que Arte, como já referi no post anterior, é um tema tão abrangente que é quase impossível traduzi-lo para palavras. E por isso no outro post centrei-me mais na área da pintura, escultura e um pouco de fotografia. Desta vez vou focar-me mais nas restantes áreas deste tema.
Uma professora brilhante de Desenho A na minha escola disse uma frase que me intrigou bastante. A frase? "Tudo o que fazes é Arte". Esta frase é tão simples, mas tão complexa ao mesmo tempo, que me deixou horas e horas a pensar. Porque, se pensarmos bem e olharmos à nossa volta, tudo o que fazemos pode ser considerado Arte. Alguns vêm um jogo de futebol e comentam "aquele passe é pura Arte", ou alguns podem  ler um livro e no final dizer "o que acabei de ler é Arte". Escrever um texto é Arte, cantar uma música é Arte, compor uma peça é Arte, representar um papel é Arte. Porquê? Bem, não o posso explicar de uma forma concreta, mas o que eu acho é que nós consideramos estas simples coisas Arte, pelo simples facto de a pessoa que realizou o acto fê-lo de tal maneira bem, que nós pensamos logo que é uma obra-prima. Porque se pensarmos bem, Leonardo da Vinci, Picasso, etc. pintaram quadros com uma mestria tão impressionante que criaram obras-primas, Arte. E quando alguém faz alguma coisa maravilhosamente bem, nós lembramo-nos inconscientemente de obras maravilhosas e associamos as duas coisas e dizemos "isto é Arte".
Mas agora focando-me mais na minha opinião. Para mim, a mais pura forma de Arte é a literatura. E quando digo literatura não digo apenas livros, falo também de poesia. É que, para os que não sabem, sou apaixonado pela poesia, pois, para mim, um poema é capaz de transmitir tantos sentimentos, tantas emoções, tantas memórias, tanta história, numa forma de escrita tão pequena e elegante que tudo isso me fascina. Olhem como exemplo "Os Lusíadas" de Camões ou "A Mensagem" de Pessoa ou, para aqueles que percebem inglês, "The Waste Land" de T.S. Eliot. Noutras formas de literatura, como a prosa, temos imensos exemplos de livros e contos que transmitem mensagens e emoções com tal mestria que nós não pensamos em palavras, mas sim em Arte.
Outras pessoas buscam a Arte noutros sítios: na dança, na música, na fotografia, no cinema, na comida, etc. Não importa aquilo que fazes ou aquilo que gostas, desde que o faças com paixão, tudo é Arte. Por isso continua a fazer aquilo que fazes, seja isso escrever, tirar fotografias, cantar, dançar, filmar, pintar, esculpir ou aquilo que seja que gostes de fazer, porque um dia vias olhar para aquilo que fizeste e vais dizer: “isto é Arte”. 

Monday, 24 September 2012

A minha opinião sobre a Arte

O que é a Arte? A Wikipédia define Arte como sendo a "actividade humana ligada a manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada a partir da percepção, das emoções e das ideias, com o objectivo de estimular essas instâncias da consciência e dando um significado único e diferente para cada obra." Eu, claro, não sou um perito em Arte, nem pouco mais ou menos. Sem muito pouco acerca desta matéria e nunca fui bom a qualquer disciplina relacionada com ela. Mas para mim a Arte não tem uma definição concreta, uma vez que é algo tão geral que se torna quase impossível de definir. Hoje em dia, a Arte pode ser basicamente qualquer coisa, e até ouvi uma professora de Desenho dizer "tudo o que fazes é Arte". Eis uma definição ainda mais geral. Para esta senhora, tudo o que fazemos é Arte, desde o texto que escreves (como este, por exemplo), à mais magnífica obra de pintura alguma vez executada, passando pelos rabiscos que fazias em bebé, pelos "desenhos" que fazias na primária e pelos trabalhos que fazias a Educação Visual no ensino básico. Mas, como este texto é uma opinião, eis que dou a minha opinião sobre este tema tão difícil de tratar.
Eu concordo com ambas as definições de Arte acima apresentadas (a da Wikipédia e a da professora de Desenho). A Arte é, como já foi referido, uma coisa tão geral que é quase impossível de definir, principalmente nos dias de hoje, neste tempo que vivemos, chamado de Idade Contemporânea. Mas antigamente não era assim. Antigamente os padrões que definiam Arte eram mais restritos, mais limitados. Vejamos como evoluiu a Arte.
As primeiras formas de Arte apareceram há milénios atrás quando nós ainda não éramos Homo Sapiens Sapiens, quando ainda éramos colectores e vivíamos em cavernas. Nessa altura o Homem fazia pinturas nas paredes das cavernas, principalmente desenhos alusivas à caça, aos elementos naturais, etc. Eram as pinturas rupestres:
Saltando uns anos, passando o tempo do grande Egípcio, da poderosa Roma e da sábia Grécia, chegamos ao tempo do Renascimento. Depois de séculos vividos na escuridão do pensamento (também conhecido como Idade das Trevas ou Idade Média), o Homem sentiu necessidade de se renascer, de voltar ao seu apogeu, de se reinventar em todos os aspectos. O Homem aperfeiçoou assim os seus conhecimentos das ciências com o desenvolvimento de novas teorias, da astrologia com a invenção de novos instrumentos e com a criação de novas teorias (heliocentrismo), da filosofia com introdução de novos pensamentos, da literatura com o aparecimento de novos clássicos que se baseavam nos antigos (como "Os Lusíadas") e, claro, na Arte com o uso de novas técnicas e com o aparecimento de novos prodígios artísticos.
O Renascimento foi, sem dúvida, uma época importantíssima para a Arte (e para todo o ser Humano em geral), mas não apenas Arte sob a forma de pintura, mas também de escultura, música, dança, etc. (não esquecendo a escrita). Foi nesta altura que surgiram os grandes pintores, escultores e músicos que conhecemos hoje.
Exemplos óbvios são, claro, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli, etc. (na pintura); Donatello, Tullio Lombardo, Michelangelo, etc. (na escultura). E é aqui que entra a minha opinião. Para mim, as pinturas e esculturas que estes mestres fizeram são Arte. Na minha opinião, estes é que são os verdadeiros mestres da Arte. Eis algumas pinturas e esculturas:
A Gioconda (ou Mona Lisa) de Leonardo da Vinci

David de Michelangelo
O Nascimento de Vénus de Botticelli
São Marcos por Donatello
O Julgamento Final de Michelangelo
Agora passamos uns anos mais à frente e chegamos à Idade Contemporânea, ou seja, os dias que correm. Muitos são os pintores e escultores, músicos e dançarinos, fotógrafos e arquitectos que nos são conhecidos. Os exemplos mais básicos incluem Pablo Picasso, Salvador Dalí, Van Gogh, Joana Vasconcelos, Paula Rego, Andy Warhol, etc. E eis que encontro um problema. Na minha opinião, a Arte regrediu no verdadeiro sentido da palavra. Ora comparem as obras acima apresentadas, com as que coloco em baixo:


White Center (Yellow, Pink and Lavender on Rose)
de Mark Rothko
Orange, Red, Yellow
de Mark Rothko
Woman III
de Willem de Kooning
Rhein II, fotografia de Andreas Gursky
a.k.a. fotografia mais cara do mundo
The Scream
de Van Gogh
Supermatist Composition
de Kazimir Malevich
Sem Título (creio eu)
de Pablo Picasso

Guernica
de Pablo Picasso
The Persistence of Memory
de Salvador Dalí
Como podem ver, hoje em dia há muitas pinturas, boas e más, na minha opinião. Salvador Dalí e Pablo Picasso são dos meus pintores favoritos, principalmente devido à irrealidade retratada nas suas obras e devido às fortes cores que usam. E, na minha humilde opinião, são dos melhores exemplos de artistas contemporâneos. Já Mark Rothko, Willem de Kooning e Kazimir Malevich apresentam obras tão simples que para mim nem chegam ao estatuto de Arte. Obras tão ridículas que, se não me dissessem que tinham sido pintadas por pintores profissionais (e se não me dissessem que custaram mais de 60 milhões de dólares), eu diria que tinham sido pintados por crianças do 6º ano. Já para não falar da magnífica fotografia "Rhein II" de Andreas Gursky que é a fotografia mais cara do mundo custando... (drumroll)...... 4.3 milhões de dólares. WTF? Quem é que no seu perfeito juízo compra aquela fotografia por 4.3 milhões de dólares. Uma fotografia tão ridiculamente fácil de tirar que qualquer pessoa com uma boa câmara e um tripé podem copiar. O que acontece a fotografias como:

São coisas como estas que me "irritam" na arte contemporânea. O que aconteceu às obras como "Mona Lisa" e "O Nascimento de Vénus"? Foram substituídas por estas novas maravilhas da Arte como "Supermatist Composition" ou "Orange, Red, Yellow"? Por outro lado ainda temos grandes pinturas como "The Scream" e "The Persistence of Memory".
Assim, deixo-vos duas perguntas: como acham que vai ser a Arte daqui a 50 anos? E o que acham desta nova tendência no mundo artístico?

P.S. Já para não falar nos novos talentos musicais que ultrapassam de longe Mozart e Beethoven com as suas músicas tão profundas e sentimentais:

Tuesday, 11 September 2012

Slaughterhouse FIve or The Children's Crusade - Opinião

Um Verão inteiro se passou sem que eu pegasse num livro. Três meses de férias e o resultado? Dois livros lidos. Devia ter vergonha, eu sei, mas durante as férias não me consigo concentrar na leitura. Mas deixando o que aconteceu nas minhas férias de lado, vou-me concentrar nesta opinião.

Um dos dois livros que li foi o Slaughterhouse Five de Kurt Vonnegut. O que me atraiu para este livro não foi a sua história ou as outras opiniões, mas sim a capa apelativa. Eu sei, cometi o pior erro que um bom leitor pode cometer: julguei um livro pela sua capa. Mas neste caso ainda bem que assim foi porque a sinopse nunca me teria atraído para este livro.
Foi o terceiro livro que li em inglês e sem dúvida que foi um pouco complicado de acompanhar tudo, mas o livro é pequeno e tenho a boa sorte de ter um irmão e um primo que sabem muito de inglês.
Então qual a história deste livro? Bem, é um pouco complicado de explicar e quando a descrever aqui, vocês vão pensar que inventei tudo à pressão, mas não.
Este livro está organizado de maneira a não ter uma ordem cronológica. Em vez disso, conta a história de Billy Pilgrim, um optometrista que teve uma vida muito invulgar. É que o Billy tem a maravilhosa capacidade de viajar no tempo, o que faz com que ele compreenda a completa essência do tempo. E com esta capacidade, Billy consegue ver o mundo como mais ninguém consegue. Mas as suas viagens no tempo não são planeadas, acontecem espontaneamente. Billy casou-se com a filha gorda de um optometrista, Valencia, teve dois filhos, Robert e Barbara e a vida corria maravilhosamente normal, até ao dia em que Billy é raptado por extraterrestres, mais especificamente por habitantes do distante planeta Tralfamador. Durante este livro, conhecemos a conturbada vida de Billy, desde o momento em que se casou até aos seus tempos num zoo em Tralfamador, passando pela parte central do livro, a Segunda Guerra Mundial, pois Billy (assim como Kurt Vonnegut) foi um prisioneiro de guerra, mantido em cativeiro no Matadouro nº5 (Slaughterhouse Five), onde conheceu companheiros de guerra.

Este foi, sem dúvida, o livro mais aleatório e "inventado à pressão" que alguma vez li. Uma mistura estranha de ficção científica com romance, drama, guerra e história. Este é um dos maiores clássicos da literatura americana, talvez tão importante para os EUA como os Maias são para Portugal.
Começando pela escrita, devo dizer que não era muito fora do vulgar. Os diálogos eram raros, uma vez que o livro se concentra principalmente nos pensamentos e nas experiências de Billy. Bastante descritiva, dá-nos uma imagem geral do que se está a passar.
É um pouco difícil de avaliar as personagens uma vez que este livro é bastante concentrado no Billy e SÓ no Billy. Existem muitas outras personagens, mas são todas figurantes e as únicas que se aproximam de personagens secundárias são o Eliot, o Lazzaro e o Edgar Derby. O Billy era uma personagem muito tridimensional, conhecemos várias facetas dele e os porquês das suas escolhas. Eliot aparece mais para a frente. Eliot é o homem que está deitado na cama ao lado da de Billy no Hospital dos Veteranos e que apresenta a Billy os magníficos livros de Kilgore Trout que ajudam ambos a superar os eventos da guerra. Lazzaro é um homem que Billy conhece na guerra, bastante violento e estranho, misterioso e manhoso. Edgar Derby foi em tempos um professor que conseguiu ir para a guerra e que se torna "amigo" de Billy.
Existem vários cenários neste livro, vários locais. Desde a casa de Billy, passando por Dresden até ao zoo em Tralfamadore, todos bem descritos e interessantes.
Mas o ponto forte deste livro é mesmo enredo. Nunca pensei que um enredo tão aleatório pudesse resultar em algo tão interessante e fascinante como este.

Concluindo, 7.5 em 10 pontos, 3 em 5 estrelas. Um livro interessante e que recomendo, mas um pouco lento e aborrecido.

Até à próxima e... boas leituras!

Saturday, 21 July 2012

Por que é que eu leio?

Por que é que eu leio?
Por que é que ler é a minha paixão?
Por que é que ler é o meu hobby?
Por que é que eu leio enquanto tantas outras pessoas vêem a leitura como um desperdício de tempo e dinheiro?
Porquê? Não sei... A sério que não. São muitas as vezes que eu me pergunto todas estas questões, mas de todas as vezes que penso numa resposta, nada me sai.
Ler, para mim, é uma paixão, é um passatempo que passa para além de um mero hobby, é uma mina de conhecimento, é um bilhete que nos pode transportar para qualquer lugar, é uma porta para a imaginação, é um mundo inteiro confinado a papel, é conhecer personagens que são tão reais como eu e tu. Ler é o meu mundo. Ler é um prazer que ultrapassa qualquer outra coisa.
A sensação de abrir um livro e sentir o cheiro do papel e da tinta, do mofo e do pó. Sentir as páginas ásperas e ouvi-las a serem passadas com o nosso dedo. O prazer que é olhar para a capa do livro, o divertimento de explorar mundos que a imaginação do autor criou. O entretenimento de conhecer as personagens, chorar com elas, sorrir com elas, apaixonarmo-nos por elas, odiá-las tanto que apetece atirar o livro contra a parede.
O mero vislumbre de uma prateleira colorida e repleta de livros deixa-me à beira do desmaio. Apenas o facto de agarrar nos livros dá-me prazer. O conforto de ler um livro com o sol a brilhar alto no céu e as ondas a rebentar ao meu lado ou, por outro lado, o aconchego de abrir um livro quando estamos deitados na cama com a neve a cair lá fora.
Para mim, os livros são o meu alimento. Sem eles não sobreviveria mais do que dois dias. Sem eles... Nem consigo imaginar um mundo onde não houvesse livros...
Por mais estranha e bizarra que esta explicação possa ser, é assim que eu me sinto quando leio livro, é esta a razão da minha paixão pela leitura.

E tu, como explicas a tua paixão pela leitura?

Até à próxima e, como sempre... boas leituras!

Wednesday, 4 July 2012

Segunda Temporada de "A Guerra dos Tronos" - Opinião

Apesar de este ser um post sobre uma série televisiva e não ter nada a ver com livros, achei que devia fazer uma opinião a esta segunda temporada de "A Guerra dos Tronos", uma vez que se baseia num dos meus livros favoritos: "As Crónicas de Gelo e Fogo". Produzida e emitida pela HBO nos Estados Unidos e em muitos outros países, a série passa em Portugal no canal SyFy.
Devo dizer que comecei a ler os livros principalmente devido à primeira temporada e por isso senti logo curiosidade pela segunda.

De início senti que a segunda temporada estava a ser um fracasso. A primeira ficou conhecida principalmente devido ao facto de ter seguido tão fielmente os livros. Era uma cópia perfeita em que as personagens eram iguais e os acontecimentos aconteciam na ordem cronológica correcta que o autor dos livros, George R.R. Martin, tinha estipulado. No entanto, a segunda temporada desviou-se bastante do enredo dos livros e os acontecimentos começaram a ser trocados. Elementos que apareciam no meio do livro começaram a aparecer no primeiro e segundo episódios. Algumas personagens foram eliminadas da série, como por exemplo o Jojen e a Meera Reed que aparecem logo no início do livro e nem sequer temos um vislumbre deles na série. Algumas personagens trocaram de nome como a Asha, irmã de Theon, que na série se chama Yara. Isso começou a irritar-me profundamente porque os guionistas estavam basicamente a pegar nos livros e a escrever a sua própria história.
No entanto, a performance dos actores e actrizes conseguiu atenuar esses falhanços. Principalmente o Peter Dinklage, que assume a personagem de Tyrion Lannister, que teve uma performance memorável (como já referi numa outra opinião a um episódio da série). Kit Harrington que representa Jon Snow também teve uma melhoria desde a primeira temporada, assim como a Emilia Clarke que assume a pele de Daenerys Targaryen.
Um dos momentos que vai ficar marcado na minha memória é aquando da Batalha da Água Negra que, creio, foi o episódio escrito pelo George Martin. Quando a batalha parecia perdida, Cersei Lannister leva o seu filho Tommen para a sala do trono e senta-se com ele ao colo no Trono de Ferro. E então começa a contar a história de uma leoa e a sua cria. Não sei se foi o ambiente, a representação ou a história ou tudo combinado, mas este momento foi mesmo marcante.
Outro momento marcante foi o final desta segunda temporada. Samwell Tarly e mais dois elementos da Patrulha da Noite procuram excrementos para queimarem e de repente ouve-se um toque longo do corno. Irmãos de regresso. Depois um segundo. Ataque de selvagens. E depois um terceiro. Os Outros. Na minha opinião, a maneira como os Outros foram executados ficou perfeita. A aura azul descrita no livro, o grito cortante e glacial, a pele branca e os olhos azuis como gelo. Tudo combinado fez este momento um dos melhores de toda a temporada.

No final, acho que prefiro a primeira temporada à segunda. Acho que esta segunda ficou um pouco abaixo principalmente devido à troca de acontecimentos e de nomes. Mas, como os responsáveis pela série disseram, tudo isso foi feito devido aos fãs da série que não leram os livros. Como é normal numa série cheia de personagens, há pessoas que são fãs de umas e outras pessoas são fãs de outras personagens e por isso têm de tentar pôr um pouco de todas as personagens em cada episódio para agradar a todos. Resumindo, 7 em 10 estrelas, um pouco desiludido mas no final conseguiram agradar-me.

Monday, 2 July 2012

A Tormenta de Espadas - Opinião

Mais um livro que cai na categoria de livros de opinião/crítica impossível. Porque É impossível fazer uma crítica completa a este livro.
Normalmente faço opiniões aos livros de "As Crónicas de Gelo e Fogo" aos pares. Por exemplo, uma crítica de "A Guerra dos Tronos" e "A Muralha de Gelo" porque estes dois livros complementam-se uma vez que em Portugal os livros originais foram divididos em dois e faz sentido fazer críticas do suposto livro completo. Mas a história chegou a um ponto em que a divisão dos livros parece uma vantagem para dar opiniões. É que tanta coisa aconteceu desde o início, tantas personagens apareceram e tantas morreram, que preciso de dividir a opinião.
Provavelmente esta crítica vai conter spoilers para este 5º livro que, tal como todos os outros da série, foram publicados pela editora Saída de Emergência que publica no nosso país os melhores livros de fantasia que um amante de fantasia podia pedir.

Mais uma vez, SPOILERS para os 4 primeiros livros da série (para quem não quer spoilers para o 5º livro, salte para a frase "Comece agora a crítica" que está a negrito)

Começamos com um prefácio, como todos os outros, passado a norte da Muralha onde a Patrulha da Noite se encontra e sob o ponto de vista de Chett, o patrulheiro responsável pelos cães da patrulha. Chett e outros dos irmãos da patrulha têm um plano para assassinar o Velho Urso, comandante da Patrulha da Noite que, para grande insatisfação dos patrulheiros, planeia atacar os selvagens. Quando o plano está prestes a ser executado, um toque longo do corno ressoa pelo ar, anunciando a chegada de irmãos da patrulha e Chett vê o seu plano ir por água abaixo. Mas então ouve-se outro toque do corno. Dois toques significam selvagens a atacar. Pior ainda. E depois um terceiro toque. Há anos que nunca se tinha ouvido três toques do corno porque três toques significa um ataque dos Outros.
Os primeiros capítulos do livro não seguem a história imediatamente a seguir ao "Despertar da Magia", o 4º livro, que acabou com a guerra da Água Negra em que Stannis avança com a sua frota para derrotar Joffrey e a sua corte. Em vez disso, sobrepõe-se, contando a história das outras personagens aquando da guerra da Água Negra. Neste livro temos novos POV's (Point of View, ou seja, os capítulos são contados através dos olhos das personagens POV) como por exemplo Jaime Lannister que se encontra numa viagem para Porto do Rei e Samwell Tarly que foge agora dos Outros para a Muralha.
Seguimos a história de outras personagens já nossas conhecidas: Arya que foge de Harrenhal para Correrrio, Bran que foge de Winterfell (incendiado) para a Muralha, Daenerys Targaryen que viaja de Qarth para o Mar do Verão (neste livro apenas pára em Astapor, um cidade esclavagista), Jon Snow que teve de se juntar aos selvagens e que neste livro se envolve com Ygritte, Catelyn que continua em Correrrio e Davos que foi encontrado nuns rochedos após a batalha e enviado para as masmorras de Pedra do Dragão.
Comece agora a crítica:
Mais uma vez, George R.R. Martin surpreende todos os leitores que chegaram até este 5º livro que até agora é o meu favorito da série. A sua escrita continua muito boa, cuidada e descritiva, mas nunca aborrecida, sempre cheia de acção. A sua maneira de descrever os locais, os sentimentos, as guerras é uma arte que ninguém pode igualar.
Basicamente todos os livros tenho personagens favoritas mas que no entanto são quase sempre as mesmas. Neste livro foram três: Daenerys Targaryen, Jon Snow e Tyrion Lannister. A querida e jovem Daenerys tornou-se numa conquistadora implacável. Senhora de três dragões poderosos, viaja para a cidade de Astapor em busca de um exército que a ajude a conquistar Westeros. E devo dizer que esta "visita" a Astapor foi uma das mais épicas que já li e quando aconteceu aquilo que aconteceu (os que já leram o livro sabem a que me refiro), sorri e ri e quase que beijei o livro de felicidade. Daenerys sempre foi uma das minhas personagens favoritas, mas vê-la sofrer tanto fez-me perder um pouco o interesse por ela. Mas neste livro ela volta em força, consegue aquilo que deseja e finalmente deixa de sofrer.
Quanto ao Jon Snow, não sei o que me fez gostar tanto dos seus capítulos. Só sei que era muito divertidos e rápidos de ler. Talvez seja por causa de ser um novo cenário (para lá da Muralha) e por termos direito a conhecer melhor a cultura dos selvagens (ou se calhar devido a outra coisa *assobio*).
O Tyrion. Oh! O Tyrion. De um momento para o outro vê-se despojado de tudo o que tinha, deixa de ser Mão do Rei, vê a sua amada Shae em perigo e o seu controlador pai sempre com os olhos em cima dele. Mas no fundo no fundo, apesar de ser um Lannister, Tyrion odeia tanto os seus parentes como nós, leitores. Odeia Joffrey que deve ser um dos piores reis que já se sentou no Trono de Ferro (tirando Aerys, claro), odeia Cersei que sempre o gozou e que sempre se mostrou implacável com ele e odeia o seu pai, Tywin Lannister, que agora é Mão do Rei e pretende casá-lo com... (leiam o livro mas tenham em mente que é uma personagem que eu nunca estava à espera que se casasse com Tyrion, mas que afinal até fazem um casal muito bom)
Personagens que não gostei nada neste livro foram a Catelyn, o Bran e o Davos. Muito provavelmente porque são personagens paradas que nunca fazem nada. A Catelyn continua em Correrrio, os dias ao lado do pai a morrer. Todos os capítulos dela são basicamente 10 páginas dela a pensar "o meu querido Bran e o meu querido Rickon estão mortos, o meu Robb está em guerra e pode morrer a qualquer momento e o meu amado Ned está sem cabeça". Todos os capítulos. Nunca acontece nada, está sempre a dizer a mesma coisa. Acho que os capítulos dela podiam ser substituídos por Robb que não teve direito a ser um POV neste livro.
Eu sei que Bran vai ser uma personagem super interessante assim que chegue à Muralha, mas por enquanto nada lhe acontece. Os capítulos dele custam-me tanto a ler. É que nem os sonhos dele em que assume a pele de Verão são interessantes. Não sei, há alguma coisa a falhar.
E quanto ao Davos, não sei porquê, mas desde o início que nunca gostei dele. Também é muito parado e repetitivo e nada lhe acontece. E quando eu pensava que finalmente algo ia acontecer (quando é atirado para as masmorras), fica tudo igual. Pode ser que no próximo seja melhor.
E pronto, acho que toquei o essencial. Os locais/cenários não mudam muito excepto nos capítulos de Jon em que ele está nas terras para lá da Muralha e nos de Daenerys em que ela visita Astapor. Outros factores incluem os Outros que finalmente entram em força na história e quando lia uma parte em que eles apareciam, sentia um arrepio pela espinha acima. E o enredo também não muda muito, excepto as pequenas e grandes reviravoltas ao longo do livro como o casamento de Tyrion e o de Robb, a viagem de Arya para Correrrio que muda de curso para sua infelicidade e a mão de Jaime que também sofre uma reviravolta neste livro.

Resumindo, um livro que adorei e devorei em quatro dias. Quando finalmente comecei as férias tinha lido 121 páginas e em quatro dias consegui ler o resto do livro, sempre querendo saber o que acontecia a seguir e apenas parando às duas e meia da manhã quando ou os meus pais me obrigavam a ir para a cama ou chegava a um capítulo de uma personagem que não gostava (Catelyn, Bran e Davos).
Por isso dou 10 em 10 estrelas (5 em 5), um Brilhante que bem que podia rebentar com a minha escala e chegar aos 20 em 10. Uma leitura que eu recomendo sem qualquer dúvida e uma saga épica que eu também recomendo não só para amantes de fantasia, mas para aqueles que se interessam por política e guerra (porque basicamente a história central é política e guerra, só com uns elementos fantásticos à mistura).

Até à próxima e, como sempre... boas leituras!

P.S.: para quem quiser entrar no "mood" para ler este livro, aqui ficam duas músicas que me fartei de ouvir enquanto lia (e uma que achei interessante):



A música oficial da série "A Game of Thrones".









A música "The Rains of Castamere" ("As Chuvas de Castamere") tocada pelos The Nationals e cantada por Charles Dance, o actor que faz de Tywin Lannister na série. Podemos ver a tradução da letra para português na página 509/510 deste mesmo livro.








E finalmente a música "The Bear and The Maiden Fair" que podemos ler ao longo do livro umas mil vezes (na página 87, por exemplo).